Informação explícita e implícita: como ensinar o aluno a ler além do que está escrito
Há uma diferença importante entre ler um texto e compreender o que ele quer dizer.
Nos anos iniciais, é comum encontrarmos alunos que conseguem localizar rapidamente uma resposta quando ela aparece praticamente pronta no texto. Mas basta fazer uma pergunta cuja resposta não esteja escrita exatamente daquela maneira para surgir o conhecido:
“Mas não está no texto!”
E, de certa forma, o aluno tem razão. Não está mesmo.
É justamente aí que começa um trabalho muito importante de compreensão leitora: ensinar a criança a perceber que algumas informações estão explícitas, enquanto outras precisam ser inferidas a partir das pistas oferecidas pelo texto.
O que é uma informação explícita?
É aquela que o texto apresenta diretamente.
Imagine, por exemplo, uma história em que encontramos a seguinte informação:
Marquinhos ganhou de sua mãe um kit para montar pipas.
Se perguntarmos: Quem deu o kit para Marquinhos?
A criança pode voltar ao texto, localizar a informação e responder: sua mãe.
Nesse caso, trabalhamos principalmente a localização e a compreensão de uma informação explícita.
E quando a resposta não está escrita?
Agora imagine que o mesmo texto conte que Marquinhos foi à praia para soltar sua pipa, mas não conseguia fazê-la subir. Depois, outro menino conseguiu ajudá-lo.
Podemos perguntar: Por que o outro menino conseguiu ajudá-lo?
Talvez o texto não diga: “O menino sabia empinar pipas”, mesmo assim, o leitor pode chegar a essa conclusão.
Ele reúne pistas: o menino conseguiu fazer aquilo que Marquinhos não conseguia, soube ajudá-lo e resolveu o problema. Isso é inferir.
A resposta não apareceu pronta. Ela foi construída pelo leitor a partir das informações disponíveis.
Inferir não é adivinhar
Esse é um ponto importante no trabalho em sala de aula. Quando fazemos uma pergunta sobre uma informação implícita, não queremos que a criança simplesmente dê qualquer resposta que considere possível.
Uma boa inferência precisa encontrar apoio no texto. Por isso, depois de perguntar “O que você acha?”, vale acrescentar outra pergunta: “O que no texto fez você pensar isso?”
Essa pequena mudança na mediação é poderosa. A criança começa a perceber que compreender um texto envolve procurar pistas, relacionar informações e justificar conclusões.
Podemos ensinar essa estratégia
Em vez de trabalhar informações implícitas apenas por meio de perguntas no final do texto, o professor pode tornar o processo visível.
Uma possibilidade é criar duas categorias:
O texto me contou.
Eu descobri pelas pistas.
Apresente algumas afirmações e peça que os alunos decidam em qual grupo cada uma deve ficar.
Por exemplo:
“Marquinhos ganhou um kit.”
O texto contou.
“Marquinhos precisava de ajuda para empinar a pipa.”
Foi preciso descobrir pelas pistas. Assim, algo que inicialmente parece abstrato começa a ficar muito mais concreto para a criança.
E a leitura pode conversar com outras áreas
Um mesmo texto também pode abrir caminhos para outros componentes curriculares.
Se a história acontece em uma praia e envolve uma pipa, por exemplo, podemos aproveitar o contexto para conversar em Ciências sobre o vento e o movimento do ar.
A pergunta deixa de ser apenas: “O que aconteceu com Marquinhos?” e pode avançar para: “Por que precisamos de vento para empinar uma pipa?”
Essa integração é especialmente interessante porque o segundo conteúdo não aparece de maneira artificial. Ele nasce de uma situação que o aluno acabou de ler e compreender.
O objetivo não é apenas acertar a resposta
Quando trabalhamos compreensão leitora, a resposta correta é importante. Mas observar como o aluno chegou até ela pode nos dizer ainda mais.
Ele voltou ao texto?
Encontrou uma pista?
Relacionou duas informações?
Conseguiu explicar seu raciocínio?
Percebeu a diferença entre algo que estava escrito e algo que precisou concluir?
São essas ações que, aos poucos, ajudam a formar um leitor mais autônomo.
Por isso, uma boa atividade de interpretação não precisa ter dezenas de perguntas. Às vezes, poucas questões bem escolhidas — algumas explícitas, outras implícitas e acompanhadas de uma boa mediação — ensinam muito mais.
Ler é encontrar o que o texto diz. Compreender também é descobrir aquilo que ele nos permite perceber sem dizer diretamente.
